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terça-feira, 15 de novembro de 2011

História

Uma das coisas que mais me foram úteis esse ano que eu estudei na faculdade foi a teoria da História, por assim dizer. Como ela surgiu, qual era sua função... o que foi pensado e feito dela no decorrer dos tempos. Minhas matérias mais legais foram Introdução aos Estudos Históricos e Teoria, Métodos e Historiografia, com o mestre Grynszpan.
Desde o primeiro semestre que eu e meu namorado ficávamos discutindo qual era a matéria mais importante. Ainda bem que foi por pouco tempo; não demoramos a chegar no óbvio: as duas matérias têm as suas devidas importâncias, cada uma no seu canto. Então começamos a discutir sobre outra questão epistemológica, aparentemente a mesma de antes, mas só aparentemente: qual é a importância delas? Bem, durante um tempo ele ganhou as discussões, claro... é muito fácil dizer qual é a importância da Física. Se eu estou digitando num notebook e vou publicar isso na internet, é porque um monte de nerds viciados em rpg e sem vida social (brincadeira, amorzinho ou não) fizeram isso*. Ponto. Mas e História?
Bem, História.
Hm.
Pensemos logo o óbvio para o nosso capitalismo sanguessuga do século XXI: não serve pra nada. Não me ajuda a extrair petróleo. Não me ensina a erguer um prédio ou uma ponte. Mas isso não é bem meu foco agora. Daqui a pouco farei um post com alguns comentários no facebook de uma amiga da faculdade que é parte agora do meu objetivo de vida: fazê-la desistir de desistir de História.
O que eu quero falar aqui é sobre como minha matéria linda e fofa expandiu minha mente. (Pelo menos é assim que eu gosto de ver. Não quero ser contrariada.) Estudar todas aquelas matérias aparentemente inúteis (coisas que não eram, mas minha revolta com o assunto fica para outro post) que me fizeram tão bem. Como, por exemplo: ainda não suporto funk e tenho certas reservas com quem gosta, mas não consigo mais não olhar (ouvir) um funk e não parar pra refletir como ele reflete o meio de alguém. Culpa da antropologia (falar de Antropologia me lembra meu professor alemão falando culturra, Malinowski dizendo: "imagine-se o leitor sozinho numa praia deserta" e o cheiro da sala 303, onde levei meu trote). Com as coisas que eu li em Sociologia, fico assistindo Clube da Luta** e tentando aplicar teorias, e isso é divertido. Foi isso que me atraiu em História no ensino médio: entender a humanidade. Com essas matérias (História, Sociologia e Antropologia) eu me sinto, prepotentemente, olhando as pessoas de cima, e tentando entender o que diabos estão fazendo e porque.
Não sei.
Nunca saberei. O melhor professor que eu tive me disse que ele quis fazer História por isso, para entender. E me disse em seguida que no primeiro semestre descobriu que nunca entenderia.
Mas isso é belo. Eu gosto.

Isso começou a me lembrar minha última aula de TMH.
As aulas de TMH são as melhores.
Outro dia eu, @RafaelOBraganca e Filipe fomos para as barcas discutindo como aplicar os conceitos de Foucalt para a reforma Passos no Rio para o trabalho de Geohistória na parte territorialização e desterritorialização.
Sério.
Mesmo.
Acabou que pensei numa coisa e falei outra: isso aconteceu depois de uma aula de Geohistória, não de TMH. Agora sim vou falar de TMH:
Grynszpan começou a falar sobre Hayden White e seu "Meta-História". Ele escreve nos anos 70. História está passando por uma crise existencial, por assim dizer... "Fazemos ciência ou somos 'só' um gênero?" Ele analisa o discurso dos historiadores do século XIX. Não no sentido de se eles analisam """"""""corretamente""""""""", ou com muita fonte, etc. Ele faz uma análise mais filosófica de o que era a História. Enfim, só comentando mesmo... Depois de mais uma aula eu posso escrever melhor. Risos.

Agora, finalmente, o que eu amo sobre estudar História:
Entender o que eu posso fazer e o que vem disso. Eu sou produto do meu tempo, do meu meio, das minhas relações. Como meu professor alemão vivia dizendo, socialmente construída. Logo, eu sou de agora e de nenhum outro momento ou lugar. Eu sou uma garota nascida e criada no Rio de Janeiro, com 18 anos, nascida pouco tempo depois do fim do mundo bipolar. Eu não consigo não ser isso. Isso vale ao inverso: eu nunca serei, entenderei completamente, verei as coisas e etc, do mesmo modo que alguém baiano, de 40 anos. Sou carioca, adolescente-adulta, criada lendo literatura infanto-juvenil do tipo Monteiro Lobato, Sir Conan Doyle e Harry Potter, e que agora faz faculdade de História. Mas mesmo assim, se tivesse alguém com essas mesmas características, eu não entenderia a pessoa. Isso pode ser triste, mas eu acho mais belo do que triste. E sabe porque? Porque isso me pôs no meu lugar. Eu sou uma observadora, no máximo admiradora. Eu persigo algo que nunca vou alcançar. Nunca vou sentir de coração o que foi 1648.
Eu não consigo saber o que outras pessoas sentem, por mais próximas que sejam. É impossível. E não me cabe julgar, não me cabe descobrir essas pessoas. Quer dizer, é isso que eu faço, mas eu não posso fazer isso com a presunção de estar certa. Nem aquelas pessoas, aquelas sociedades, saberiam se definir. Por que diabos devo eu, então, afirmar que elas tinham um modo de produção asiático?!
Como se percebe, não gosto de certas afirmações. Claro que depende de como ela é feita. Mas no geral não gosto.
Então, eu simplesmente observo. E venho escrever um texto.

E sabe o que é lindo? Estou falando dos meus textos da faculdade mas isto é perfeitamente aplicável à vida.

É por isso que eu amo a minha faculdade.


* Depois vou escrever sobre as duas melhores coisas que eu fiz para o meu namorado, e para mim: ir na exibição de Obrigado por Fumar da Casa da Ciência da UFRJ e assistir Clube da Luta.
** Minha mãe vai me dar o livro que deu base ao filme! AEAEAE! Não tem edição brasileira, então vou comprar em inglês, mas não me importo de ler com um dicionário do lado. O discurso do Tyler Durden merece meu esforço.

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