Clicadas

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Amargo*

Não sei. Simplesmente isso: não sei. Nada do que eu pensava parece fazer sentido. Parece que eu tenho consistência de gelatina. Nada do que eu acredito parece ser verdade. Nada parece eterno, nada mais parece que vai me dar a certeza de alguns (ótimos) anos atrás. Eu não quero ser sábia. Não quero saber o que é certo ou errado. Sinceramente, não me importo de estar errada. Mas eu quero acreditar. Eu preciso acreditar em alguma coisa. Eu preciso de uma certeza. Eu preciso de algo com "moldura em granito", foi mais ou menos assim que Drummond disse (num poema que odeio pensar assim, mas infelizmente, concordo e acredito).
Será que não existe nada eterno? Não há nenhuma certeza além da morte? Será que há em algum canto não explorado uma pessoa que jamais vá decepcionar alguém importante?
Eu me sinto vazia, e é isso que me mata. O vácuo me sufoca. O vácuo afogou as minhas crenças, as minhas confianças. Eu finjo que acredito pra ver se se torna verdade.
Eu vejo coisas que eu não via antes e preferia não ver. Coisas que me põem um peso nos ombros que eu não me sinto capaz de carregar. Tem tanta gente mais forte que eu... por que eu devo aguentar tudo isso?
Acho que estou deixando de ser cega. Estou vendo o que, por bondade?, se escondia de mim.
É tudo tão ruim, tão feio, tão horrível, tão sem fim. É um infinito de coisas que me fazem sentir fraca e incapaz. Errada, pecadora. Eu não sou nada. Nada. Só mais uma. Só mais alguém que provavelmente não vai fazer diferença.
Eu não vejo futuro, às vezes. Como eu poderia aguentar?
Quando meus pensamentos tomam esse rumo depressivo eu começo a me desacreditar. A falar pra mim mesma, e mais uma vez me forçar a acreditar, que tudo isso não é nada, que não é passageiro, assim como todos ao meu redor têm me dito. O interessante é que às vezes, na minha linha bêbada de pensamentos, eu acredito. Aí eu penso como eu sou idiota. Como eu sou fraca (de novo!) e como eu sou egocêntrica. Como eu penso em tudo como sendo sobre mim... e não é. Mas eu não sinto isso. Só digo porque provavelmente é o mais racional e é algo que se espera na minha idade. Argh, bléh, eca! Minha idade. Era feliz com 16, 15, 14... Acho que vou ficar embaixo da cama ano que vem quando fizer 18. Mas hein, será que meu egocentrismo é resultado do fato de eu ser filha única? Um psicólogo (ou psiquiatra, não entendo bem) diria que sim. Aí eu penso... será que todas as coisas da minha infância vão gerar um resultado tão desastroso assim pro resto da minha vida? (Minha infância não foi monstruosa. Só fui meio solitária, mas tudo bem, isso me fez ler mais. O problema é aquele drama constante e etc que de vez em quando me fazia achar que várias coisas eram as últimas. Acostumei.)
Voltando ao que eu ia dizer: às vezes, quando consigo me enganar, eu tenho um ataque de carpe diem. Uhul, vamos para a Lapa! Vamos a cinema inteira para o cinema! Vou passar a semana inteira na casa de amigos! Vou ver os filmes que eu ainda não vi, os clássicos, aqueles de faroeste!
Aí eu volto a pensar e "não seja idiota. Você está sentindo como se não gostasse de ninguém. Vazia até de sentimentos. Você, Renata, você. Sempre tão apaixonada... sempre tão cheia de sentimentos e de confusões por tê-los em demasia... agora sente como se tivesse poucos demais." E eu não sei o que eu prefiro: ter ou não ter, eis a questão.
No ápice de tudo, eu me forço a pensar que é momentâneo. Que isso tudo vai passar. É só essa maldita transição de fase de crescimento, alguma porcaria desse tipo que falam por aí. Passa. Mas eu não queria nem que acontecesse. Eu não queria mudar as minhas opiniões, eu não queria ver a verdade. Como que eu vou viver assim? Eu não fui feita pra isso. Eu preciso de coisas eternas e exatas. Ops, exatas, eu? Também não. Eu não sei quem eu sou, eu não sei do que eu gosto, eu não sei o que eu quero, eu não sei o que eu vou fazer, eu não sei o que vai durar. Eu só sei o que eu não quero.
E nessa angústia, nesse andar perdido, nessa linha de trem cheia de tantas encruzilhadas, dançando cega nesse escuro de uma ante-sala, eu fico. Sem saber de nada. Fui desconstruída e não me conformei com isso. Eu tenho um monstro interno que puxa as peças de volta. Eu não sei contra quem eu luto: contra os que destroem ou o monstro que pega as peças de volta. Ou melhor... não sei se devo lutar. À esta altura dá vontade de me jogar numa corrente e me deixar levar...


(Será que esse texto deveria se chamar Crescendo?)
* Achei! O título é: "Amargo"

2 comentários:

  1. Já disse e repito aqui, quando escreve com alma seus textos sempre saiem melhores. Tive essa fase, e de vez em sempre ainda a vivo, não vou dizer que é facil mas passa. Para alguns rapidamente para outros com pesar,mas passa.

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  2. Concordo plenamente com a Jess...nada melhor do que escrever com a alma.
    Se despir em palavras ainda é o seu poetecial..ou eplo menos, é assim que seus textos se tornam bests-sellers para mim.
    Adore o textoo, conversamos sobre isso várias vezes, mas nada foi melhor que esse texto.
    Amigaaaa, vc tem uma alma linda.

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